Brasil, 2075: uma distopia provável
por Ronei Martins
Na megalópole de São Paulo, agora uma cidade-estado autônoma, Zara caminhava pelas ruas poluídas em busca de restos de alimentos. Enquanto observava os grandes edifícios iluminados, com fachadas imponentes e fortemente protegidos por corporações de segurança, refletia sobre o contraste entre sua vida e a opulência exibida. Aqueles edifícios da antiga Avenida Paulista abrigavam as sedes nacionais das corporações multinacionais que governavam o país por delegação de presidentes e governadores, que foram eleitos diretamente pelos cidadãos que podem votar — pessoas com renda elevada, que pagam impostos e possuem formação universitária completa.
Aos 25 anos, Zara faz parte da primeira geração que cresceu sem as universidades públicas. O Brasil que ela conhece é muito diferente daquele que seus avós contam, com nostalgia. A extinção das universidades públicas, concluída em 2045, foi o golpe final em um processo de sucateamento que durou décadas. As consequências para o Brasil foram catastróficas, afetando todos os setores da economia e da sociedade.
As universidades públicas brasileiras eram centros de inovação e pesquisa tecnológica, dizia seu avô. Ele falava de instituições que produziam avanços significativos em áreas como engenharia, computação, robótica, inteligência artificial e saúde. Em 2023, o Brasil figurava entre os 50 países mais inovadores do mundo. Sem o motor de inovação que eram as universidades públicas, o país regrediu drasticamente em termos tecnológicos. Zara ouvira de um grupo de resistência contra as corporações que, 50 anos antes, o Brasil registrava centenas de patentes de novos produtos, mas agora são raras, todas de brasileiros que trabalhavam para corporações internacionais. A dependência tecnológica do exterior é quase total, importando até mesmo as tecnologias mais básicas.
Na rua, uma pixação dos revoltosos alerta que a inteligência artificial desenvolvida no Brasil, que teve suas raízes em laboratórios de universidades federais, agora é dominada por empresas estrangeiras instaladas exatamente onde existiram essas instituições, que foram vendidas. Até o supercomputador Santos Dumont, que era orgulho nacional na década de 2020, está abandonado como sucata em um terreno, na frente a uma das corporações estrangeiras, deixado ali como um sinal de que o brasileiro não era mais capaz de desenvolver ciência e tecnologia.
Com o desmantelamento das universidades, a pesquisa agropecuária sofreu um duro golpe. Por isso, Zara não consegue mais ter acesso a alimentos frescos. Eles se tornaram caros e inacessíveis para os zumbis, apelido que a pequena população rica deu à massa humana que não tem trabalho, casa ou educação formal.
A falta de inovação frente as mudanças climáticas resultou em métodos agrícolas obsoletos e pouco produtivos, afetando diretamente a economia e a segurança alimentar do país. O agronegócio de ponta está na mão de corporações privadas transnacionais e toda a produção vai para os países dominantes.
A produção de cereais, que, com o clima extremo, precisou de novos cultivares, nas não há cientistas brasileiros para desenvolve-los. O povo luta para manter a produção de subsistência. O Cerrado, antes um celeiro agrícola, agora é um vasto deserto entremeado de um bioma parecido com as savanas africanas. As outras áreas agrícolas são das corporações.
As universidades públicas brasileiras também foram cruciais para o desenvolvimento da saúde pública. A avó de Zara, todas as vezes que adoecia, lembrava-a das pesquisas que levaram a importantes descobertas médicas e ao treinamento de profissionais de saúde altamente qualificados. Sem essas instituições, a formação de médicos, enfermeiros e pesquisadores foi severamente prejudicada. A saúde pública entrou em colapso, com hospitais superlotados e falta de profissionais qualificados para o atendimento da população de baixa renda. Com isso, doenças que haviam sido erradicadas ou controladas 50 anos antes retornaram, e a expectativa de vida da população caiu drasticamente.
A avó de Zara estava correta. Em 2023, a expectativa de vida no Brasil era de aproximadamente 76 anos; em 2075, caiu para menos de 65 anos. O sistema de saúde brasileiro, que já foi referência mundial com o SUS, entrou em colapso. A formação de médicos tornou-se um privilégio para poucos. Doenças tropicais, antes controladas, voltaram a assolar o país. Com as mudanças climáticas, doenças contidas na floresta tropical e nas áreas mais quentes passaram a assolar o Centro-Oeste e o Sudeste.
A falta de inovação e desenvolvimento tecnológico afetou diretamente as relações internacionais do Brasil. O país, que antes era visto como uma potência emergente, tornou-se cada vez mais dependente de tecnologia e produtos estrangeiros. A balança comercial, que em 2023 apresentava um superávit de bilhões de dólares, entrou em déficit crônico. O Brasil passou a importar muito mais do que exportar, aumentando sua dívida externa e perdendo influência geopolítica.
Os indicadores de desenvolvimento humano (IDH) também sofreram uma queda acentuada. Em 2023, o Brasil tinha um IDH de 0.754, considerado alto. No entanto, em 2075, o IDH caiu para 0.600, refletindo a deterioração da educação, saúde e qualidade de vida da população. A desigualdade social aumentou, com uma elite rica e educada em universidades estrangeiras ou privadas do país, enquanto a maioria da população enfrentava falta de trabalho e pobreza extrema. Zara é um exemplo desta população. Jovem, semianalfabeta, sem qualificação para os trabalhos disponíveis, é uma zumbi, assim como os milhões semelhantes a ela que vagam nas megalópoles.
Antes, diziam os avós, o analfabetismo e a falta de formação profissional eram muito menores. Depois, voltaram a crescer porque as pessoas foram convencidas de que as faculdades e universidades públicas eram lugares perigosos para os jovens. Em 2075, mais de 70% da população é considerada analfabeta funcional, contra 29% em 2020.
Como consequência, as doenças, a fome e a pobreza se ampliaram muito desde 2050. Atualmente, o país se divide em megalópoles autônomas com pequenas áreas urbanas onde o estado consegue manter a aplicação das leis e oferecer segurança mínima por meio de contratos com grandes empresas multinacionais. A minoria da população (cerca de 10%) vive fortalezas, condomínios de elevado Índice de Desenvolvimento Humano, enquanto a quase totalidade da população vive em condições péssimas, governada pelo crime organizado, sem a existência de um governo ou de estruturas do estado.
Ao conseguir capturar um rato para levar para casa, Zara suspirou, lembrando-se das histórias que seu avô contava sobre os tempos em que se estudava gratuitamente em uma universidade pública. Naquela época, diziam, o Brasil sonhava em ser uma potência mundial. Agora, é apenas mais um território subordinado às grandes corporações transnacionais, pagando o preço de ter abandonado a educação e a ciência.
A decisão de fechar as instituições foi justificada pelo alto custo das mesmas e a crença de que o setor privado supriria todas as necessidades educacionais e de pesquisa. O resultado foi a destruição da capacidade competitiva, de autossuficiência e da soberania nacionais. O pior, lamentavam os avós, é que a maioria da população apoiou a extinção delas e de quase todos os serviços públicos, convencida por mentiras e notícias falsas divulgadas insistentemente pelos meios de comunicação e por políticos.
Triste, Zara se pôs a caminhar de volta para o seu barraco. Pelo menos naquela noite fria poderiam fazer uma sopa com proteína animal, algo raro para os zumbis brasileiros.

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