🧠 O Luto da IA
Por Prof. Ronei Martins – profroneimartins@gmail.com
Vivemos hoje um misto de encantamento e resistência em torno das inteligências artificiais e dos grandes modelos de linguagem (LLMs). À medida que essas tecnologias se infiltram em todas as esferas da vida acadêmica e corporativa muitos de nós experimentamos um misto de fascínio e resistência. Talvez o termo mais adequado para esse fenômeno seja o luto da IA — o processo psicológico e social que acompanha a perda simbólica de papéis, certezas e métodos diante do inevitável avanço da automação que enfrentamos.
Segundo Elisabeth Kübler‑Ross (1969), todo luto passa por fases emocionais: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Basta olhar em volta para reconhecer o roteiro. Primeiro, a negação: “IA? Isso é só mais uma moda, daqui a pouco ninguém fala mais disso.” Depois vem a raiva: “Essa máquina vai nos substituir! Vai acabar com o pensamento humano!” Um tempo depois, surge a negociação: “Tudo bem, podemos usar IA, mas apenas para corrigir trabalhos ou ajustar bibliografias”. A fase depressiva aparece sutilmente com aquele desânimo ao se perceber que a IA não só veio para ficar, como já se tornou parte inseparável do cotidiano. E por fim chega a aceitação: o momento em que se começa a interagir, sem culpa com a ferramenta.
Esse percurso emocional não é sinal de fraqueza ou despreparo, mas reflexo de algo que Leon Festinger (1957) denominou de dissonância cognitiva: o desconforto que sentimos quando fatos contradizem nossas crenças estabelecidas. Quando um professor, pesquisador ou outro profissional veem uma IA realizar parte do trabalho que antes era expressão de seu domínio e identidade, há um conflito interno estabelecido. A reação natural é negar, criticar ou fugir. São formas de se restaurar a sensação de coerência.
A IA, nesse sentido, é um espelho de nossas incoerências: coloca em xeque a ideia de que o intelecto é domínio exclusivo dos humanos. No fundo, este luto digital é mais sobre nós do que sobre as máquinas. Parte da resistência à IA revela o quanto ainda associamos valor profissional à ideia de controle, autoria, competência exclusiva e previsibilidade. Quando a máquina escreve, cria, analisa e corrige, o sentimento primeiro é de que algo essencial foi usurpado. No entanto, cada fase de luto também é uma chance de redefinição: qual é, afinal, o papel do humano num mundo em que raciocinar e realizar determinadas atividades cognitivas deixou de ser exclusividade humana?
Assim como a internet e o ensino online um dia foram vistos com muita desconfiança, a IA do tipo generativo também deixará de ser grande ameaça e se tornará mais uma ferramenta. E, quando chegarmos à fase da aceitação, o verdadeiro diferencial não estará na capacidade de gerar respostas, mas competência em elaborar boas perguntas, pensar o inusitado, intuir soluções improváveis, tomar decisões emocionais. Habilidades profundamente humanas!
Superar o luto da IA não significa abandonar a crítica, e sim integrá-la à prática. Significa reconhecer que as tecnologias não substituem o pensamento, mas o desafia a ser mais profundo, ético e criativo. Talvez o caminho, como diria Festinger, não seja negar as tensões, mas aprender a reduzi-las transformando nossas crenças. Isso implica ver a expansão da IA generativa não como o fim de uma era, mas como um novo capítulo da inteligência humana.
📚 Referências
Festinger, Leon. A Theory of Cognitive Dissonance. Stanford: Stanford University Press, 1957.
Kübler‑Ross, Elisabeth. On Death and Dying. New York: Macmillan, 1969.
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